Lá estão as grandes telas, os cavaletes com desenhos em andamento. Um deles praticamente acabado, que Lydio examina situando detalhes a serem aperfeiçoados; outros a meio caminho, com áreas incompletas e brancas invadindo figuras já esboçadas ou até concluídas. Em tudo isto, e no momento em que armazenamos estas impressões, a sensação perfeita de um trabalho jubiloso, de uma missão que se cumpre sem outra alternativa.
Referindo-se ainda ao aprendizado, Lydio acrescenta:

“Este aprendizado tem que ser feito na juventude e esem concessões. É em cima do conhecimento técnico que o aluno vai apoiar sua linguagem, quando a tiver. Adquire então uma segurança indispensável e a técnica fica sendo uma segunda natureza”.

Vale a pena salientar que através desta vinculação ao pensamento sem dúvida revolucionário do Renascimento, Lydio Bandeira de Mello atende a uma inclinação que procede da abrangência cultural e do valor perfurante do olhar que capta sobre o objeto exposto: o da ambição de tanger o universal, o destino arcaico e transcendente do homem evadido do paraíso, tropeçando na conquista de farrapos desta felicidade que um dia lhe foi integralmente cativa, enquanto partícipe da contemplação divina. É verdade que neste exercício bíblico reside a grande força da construção humana, no sentido de recuperar, em parte a identidade com o Criador. E o artista assume papel de protagonista nesta fábula.

O afresco está lá, no vilarejo italiano, até hoje em perfeito estado. Lydio informa que o trabalhou exatamente dentro da técnica do afresco puro, tendo sido essa aprimeira obra que realizou. “Por mim, eu vivia dependurado nas paredes” - confessa ele, com certa graça. E atrás do gracejo, a dramática evidência do desinteresse do poder público brasileiro por estas obras públicas e democratizantes, que levam ao povo, em sua condição de massa urbana e comunitária, os valores espirituais dos criadores de seu tempo.

Referindo-se a ela (exposição individual realizada após seu retorno ao Brasil, depois do Prêmio de Viagem), escreveu Vera Pacheco Jordão:

“Assim que vi, nas paredes da Goeldi, os desenhos de Bandeira de Mello pensei nos romances de Cornélio Pena, que nos situam naquela áspera paisagem e trazem ao nosso convívio personagens como que mimeticamente adaptados à severidade ambiente. Verifiquei depois que Bandeira de Mello é mineiro, justificando’se assim minha primeira impressão, e explicando-se (tanto quanto isso pode ser explicado) a força incisiva e sóbria de sua arte. Como seu conterrâneo Zé Lins qualificava de “magros”, por oposição aos “gordos”. Em sua arte não há nada sobrando, nenhuma redundância, nem um só traço que não seja indispensável ao essencial. É bom encontrar uma rtista que, dominando perfeitamente o desenho, serve-se dele com instrumento de precisão, quando há tantos que o transformam em elemento meramente decorativo”.

Ao aprensentá-lo no catálogo respectivo, declarou o arquiteto Paulo Penna Firme:

“É bem fácil identificá-lo em sua obra, apreciando, entre outras expressões de seu caráter enérgico e nobre: nos seus traços, sua certeza de gestos; nas transparências e texturas de suas tintas e manchas, sua alma cristalina; nos definidos contrastes de luzes, sombras e meios-tons, sua grande noção de valores; na variedade de suas técnicas e na sua mensagem imediata, seu tão visível dom de mestre e instrutor; e em seus temas fortes e motivos sutirs, seu amor e seus ideais. Uma obra assim, cheia de graça e filosofia, de conteúdo e discernimento, de beleza e permanência, de grandes exemplos e ensinamentos, fere frontalmente a mediocridade e abre uma das raras exceções nas artes brasileiras contemporâneas”.

Falou com acerto o apresentador que, em não sendo crítico, tocou afetivamente nas pedras de toque dos valores bandeirianos. Outro profissional de garra, o arquiteto e gravador Almir Gadelha acrescentaria:

“Dedicado ao desenho (’O desenho é a probidade da pintura’ - Ingres), excelente artesão, preocupado com a permanência de testemunhos reveladores de sua paixão, Bandeira de Mello atinge o universal”.

E é ainda em Quirino Campofiorito que eremos uma expressão conclusiva:

“Pintor de paleta severa e restrita, não expansiva para um cromatismo exaltado, deixa perceber atenção muito esmerada para com o desenho. Tem este, sem dúvida, supremacia sobre a cor, já que ele se revela entregue à gravidade da pintura mural, partindo de seu exemplo capital que é a técnica do ‘afresco’ particularmente, em sua disciplina tradicional. Esse aspecto marcante personaliza sua pintura, em que amatéria de suas tintas tanto quanto as marcas de seus corantes parecem subordinar-se às determinações do desenho, nos detalhes como nas estrutura geral. É sem dúvida um artista apaixonado pelo desenho e pelo formalismo composicional, muito à maneira da pintura mural dos mestres primitivos italianos, que muito lhe terão conformado os critérios estéticos. A coleção de desenhos que inclui na mostra afirma sua situação de desenhista altamente categorizado dentre nossos artistas vivos”.

Acontece que, exatamente pela particularidade de ser ele, além de um exímio desenhista e pintor, um homem culto, seu universo de expressão não é estanque. O desenho e a pintura que ele consuma, na madurez de vida e ofício exemplares, vem valorizado por este conhecimento de vasta universalidade.

Nada mais eficaz para entender a natureza depurada e complexa do desenho do que um passeio visual por este livro, que reproduz uma pequena parte da produção de Lydio Bandeira de Mello. Em primeiro lugar, o artista nos concede um sentimento de grandeza (não de orgulho) - mas daquela grandeza que diferencia a alma humana de todas as almas adjacentes que a natureza oculta sob a capa do irracional. Altamente racional, esta grandeza confere com o destino da projeção divina, da imagem e semelhança enrustida nas mais patéticas transgressões. O desenho aqui veiculado é, portanto, um reflexo da nossa condição e compromisso com a construção da Terra Prometida. Em nenhum momento o desenhista se amesquinha na solidariedade do relato, e qualquer esboço tem a potencialidade de uma tela gigante, sobre a qual se prepara a conversão dos grandes acordes.
Paralelamente a esta visão bíblica sobre o mais trivial dos acontecimentos, temos a dignidade do corpo, a elegância e nobreza da carne, tocada pelo Sopro. O esquálido, o miserável, o perambulante, o triste e o trágico, se iluminam de uma dignidade interior, o que vem resgatar o realismo da idéia inicial de sua condição perecível. A hitória da carne, no caso, pode estar condenada, jamais a dimensão de vontade e consciência que a informa. No desenho de Lydio Bandeira de Mello, no qual o diálogo do preto e do branco encontra gradações de uma sutilieza mágica, a sensação de variedade cromática invade a apropriação ótica, o qe evidencia a prevalência dos valore sotnais sobre a cnvenção sedutora dos demais pigmentos. Todo este arsenal ténciao, Bandeira de Mello vem erigir principalmente sobre a estrutura anatômica, unitária ou grupal, à qual toda a ambiência se submete. Nele, o ser humano volta a ocupar o centro da Criação, o artista acredita na vocação condutora do homem, e do amor de que ele é capaz, “amor que move o sol de outras estrelas”.

Há uma sucessão de denúncias e constatações na obra de Lydio Bandeira de Mello que valem por uma nova escritura muito pessoal, onde a leitura não se concatena a partir de uma lógica discursiva, mas de uma sucessão de estados de ser, testemunhando o humano em sua irreversível perplexidade. Não cabe, no caso, utilizar uma ótica obsessivamente renovadora, mas conceder ao pensamento a possiblidiade de tocar o limite de suas âncoras. Onde está o homem que fomos e somos, em que submerso oceano da memória? Pode um artista como Lydio Bandeira de Mello, mais possivelmente uma milíca de seres como ele, adestrados à captação sob as mais variadas linguagens, recompor este mapa ancestral.

Neste sentido, o clima regional é substituído pela metáfora universalista; afinal não se trata de ser verdadeiramente ingênuo, como disse Edson Motta, mas verdadeiramente manifesto num contexto cultural que fecha o círculo/
Podemos passear por esta sucessão de registros do homem pensado através da pintura ou do desenho, como diria Cèzanne. Não estamos sendo ludibriados por qualquer espécie de ilusionismo, mas seguimos a trajetória lingüística de um artista que obedece cegamente à natureza, até o ponto em que esta natureza lhe possibilita recursos de reflexão. E no refeletir está a outra natureza que, na verdade, torna essencial o que era apenas suporte do viver. Gostaria de, com a máxima simplicidade, encerrar esta fala. Gostaria de transmitir o prazer que me deu o exercício do ver,, no encadeamento destas cenas captadas pelo desenhista, dentro do espaço trivial e cotidiano. De enfatizar a categoria humana com que ele valorizou este testemunho, reforçando no instante o que é permanente, criando códigos de passagem entre as criaturas do mundo no in fieri do tempo. Estou certo de que estamos neste liro numa esteira de prazer visaul, e isto é muito importante. Tudo o que vier em acréscimo, po ssivelmente atiçado pelas palavras aqui encadeadas, será o prêmio do cronista, este espectador agradecido que apenas quis passas ao passar ao provável leitor o reconhecimento por mais uma revelação.

Walmir Ayala - “A arte do desenho” - 1998